Figueroa Mountain Gran Fondo

E quem diria? Eu, minha bike, minha coragem e minha loucura.

Quando soube desta prova aqui do lado mandei mensagem para o meu treinador e ele depois de analisar o grau de dificuldade foi direto: “É bem difícil Ju, temos um mês para focar, mas se estiver disposta, vamos nessa.” Não pensei duas vezes e me inscrevi. Sabia que os treinos seriam sofridos, mas o que eu não pensei foi que ficaria louca com os final test do College junto com esses treinos. Quase surtei para cumprir tudo! Porém, me joguei.

Não furei um treino. Nem pensei em desistir. Sofri com o calor, com o vento, com as inúmeras subidas, com o medo de fazer um longo sem saber onde estava indo… Mas a cada fim de treino, uma segurança. Não tinha mais medo e nem  reclamava mais. Estava me sentindo segura e cada vez mais corajosa.

Na última semana, fiz uma listinha de coisas que precisava resolver para ir para a prova. Adivinha? Não consegui cumprir nada. Não tive tempo. Estava cheia de lição, trabalho e tudo com um prazo curto para entregar.

Iria viajar na sexta de manhã, já que a prova era no sábado. Na quinta de manhã peguei essa listinha e assustei: não levei a bike pra revisão; (estava com medo de duas coisas: eu mesma instalei meu pedal e só pensava que ele poderia soltar e meu freio que estava com um barulhinho, só pensava que ele poderia falhar!);  não tinha nem óleo para passar na corrente, não tinha comprado gel, não instalei outro suporte de caramanhola; fui apenas com uma garrafinha de água para uma prova de 4 ou 5 horas; não tinha feito nada para me sentir mais segura. Fiz o que deu. Parei em uma loja na sexta antes de viajar e comprei óleo, gel e peguei a estrada.

Na sexta à noite, calibrei os pneus e passei o tal óleo na corrente, coisa que nunca tinha feito sozinha (podem achar um absurdo, porque é mesmo!) e só pensava… “meu pneu não pode furar” (acreditem, mas não sei trocar, o meu furou apenas uma vez e fui socorrida pela minha assessoria). Eu sei, deveria ter aprendido, mas não aprendi. Fica a lição!

Sábado de manhã. A caminho da largada. Estava realmente nervosa. Não sabia onde estava me metendo. A única coisa que me tranquilizou foi que a Symone, uma amiga de SP, estava de férias por aqui e se aventurou comigo nessa! Ela ficou comigo até a hora que deu, mas depois teve que sair da largada se não fatalmente seria atropelada por alguma bike! E lá fui eu.

Quando soou a buzina, meu coração disparou e meu olho encheu de lágrimas. Respirei fundo, engoli o choro e fui. Estava tudo sob controle. Pernas ok, asfalto incrível, subidas tolerantes… Até que o grupo se divide e as pessoas que fariam o menor trajeto pegam a direita e eu continuo. Começa aqui a minha prova.

Comecei a subir a tal da Figueroa Mountain. Subi, subi, subi. De repente o asfalto vira terra com pedras. E eu só pensava “essas pedrinhas não vão furar meu pneu.” As subidas ficavam cada vez mais íngremes. Eu tentava levantar do selim, mas como era uma estrada de terra fofa, a bike derrapava, então copiava os outros e me mantinha sentada. Teve vários momentos na estrada que tinha mata burro, aquela grade no chão. E outros momentos que passávamos na água. Me assustou tudo isso. Era um percurso muito técnico, com ciclistas experientes, uma galera forte e preparada e eu com medo de furar o pneu, de soltar o pedal, de faltar água, do freio falhar…

No primeiro ponto de comida e bebida eu enchi minha garrafinha, peguei alguns pretzels salgados e já queria continuar. Até que uma senhorinha da organização veio me segurar um pouco e disse: “Espera mais uns minutinhos, tá todo mundo aqui, ninguém passou, esse break aqui é importante.” Eu que não manjava nada de prova de ciclismo só obedeci. Mas duas coisas me chamaram atenção nisso. Primeira, eu estava com todo mundo, no mesmo ritmo! Segunda, ninguém estava muito preocupado com o tempo, a prova era uma superação pessoal, não uma competição.

Continuei quando todos continuaram. Obviamente o grupo foi se desfazendo. E as subidas só aumentavam. Não acabava nunca! E confesso com orgulho: em nenhum momento senti minhas pernas doendo a ponto de pensar em desistir, tampouco perguntei o que eu estava fazendo ali. Eu sabia o que estava fazendo, estava bem, forte, não cansei.

Outro ponto de comida e bebida. Mais água, mais pretzel, xixi e continuei. Desta vez saí sozinha, pois já estava todo mundo bem separado. E finalmente, as descidas começam. Primeiro levantei os braços pro céu e gritei “VOLANTÃOOOO,” juro, eu fiz isso! Mas aí começou meu desespero. E mais uma vez eu vejo que experiência é tudo. As descidas eram íngremes demais, estreitas, com muitas curvas fechadas e com um penhasco para baixo. Fui segurando tanto o freio que meus dedos e meu antebraço gritavam de dor. E mesmo segurando o freio eu descia a 40km/h e às vezes mais. Foi tão sofrido que uma hora eu tive que parar e alongar os dedos, não tô exagerando! E eu só pensava no pior “Meu freio vai falhar porque eu não levei a bike pra revisão, eu vou derrapar, capotar, rolar penhasco abaixo…” Juro! Fiquei desesperada! Mas graças a Deus, nada disso aconteceu! E quando finalmente elas acabaram, veio um retão sem fim e ali eu percebi o quanto estava ótima.  Acelerei como nunca na vida. Passei por muita gente. Muitos carros passavam por mim e faziam joinha! Estava me achando a ciclisticista! Estava com orgulho de mim. E não tô sendo metida não, longe disso! Mas eu estava feliz demais!

Olhei para o Garmin e faltavam 6km. Não queria parar. Estava encaixada a 35km/h então passei direto pelo ultimo ponto de água e comida, segurei o choro e vi de longe a linha de chegada.

Quando ouvi o cara falar “Juliana Winterink” you’re finished, não segurei mais o choro. Só desci da bike, peguei meu celular e fiz a primeira ligação. Para alguém que esteve comigo o tempo todo.

 

Fica a lição:

Ciclismo é tecnica. E exige muita experiência.

Mas eu tinha que começar né?

 

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